Conselhos aos Familiares e Amigos do Doente Oncológico

Ponho-me no lugar do familiar ou amigo do doente oncológico e percebo que deve ser complicado.  O doente oncológico é de facto um doente muito especial. É um rótulo permanente que se ganha. Como ser mãe. É-se mãe para todo o sempre.

Nunca tinha estado no papel de amiga de doente oncológico antes de ter passado pela experiência de ter um cancro. Não sabia o que era encarar alguém de quem se gosta a passar por uma situação destas. Não sei que atitudes teria tido, mas sei, com certeza absoluta, que teriam sido muito diferentes das que tenho agora, sendo eu própria doente oncológica. Por esta razão, achei adequado escrever este texto com conselhos de como lidar com esta doença.

Equilíbrio entre Apoio e Sufoco
O maior desafio será encontrar o equilíbrio entre dar apoio, estar presente, e não fazer a pessoa sentir-se como um fardo. Não sufocar a pessoa com mensagens diárias, “Estás bem?”. Essas mensagens, com toda a boa intenção de mostrar cuidado e preocupação, lembra a pessoa diariamente que está de facto doente. A minha tia mandava-me mensagens quase diárias, mas a minha atitude perante o cancro nunca deu espaço para que essa preocupação se tornasse excessiva ou me fizesse sentir doente.
Desdramatizar a doença sem a desvalorizar. Claro que um “Isso vai passar!” não é de todo adequado, nem faz sentido. Contudo, falar excessivamente sobre a doença e o processo causa um sentimento de impotência e permanência em relação ao estado de doença. Eu não me importava, nem me importo ainda, de falar sobre a doença. Contudo, a minha vida e os meus dias não se definem por causa dela. Há vida para além do cancro. Continuo a ser a mesma pessoa, na minha essência, a gostar das mesmas coisas.

Os Elogios e Falsos Elogios
Se a pessoa estiver com ar doente, é preferível não comentar. Nem pela positiva nem pela negativa. O doente oncológico ainda possui a capacidade de auto-observação. Eu sabia muito bem quando estava bem encarada ou mal encarada, quando tinha olheiras e um ar cansado. Os comentários do género “Hoje estás com um ar cansadito…” não trazem nada de positivo. Pelo contrário, podem fazer a pessoa sentir-se ainda mais cansada, ainda mais feia, ainda mais doente. Apesar de termos a capacidade de auto-observação, há uma certa ilusão que os outros não vão reparar que estamos com um ar doente. Ou então um certo sentido de conforto que a sua aparência é irrelevante. Nesta ordem de ideias, não é bom elogiar um doente quando este está com ar cansado e doente. “Estás tão gira hoje!” quando a pessoa está claramente o oposto disso é desnecessário.

Se a pessoa estiver bonita, sem ar de cansaço, essa será a altura para elogiar (sem ser em excesso, claro!). Todos os elogios, de qualquer forma e cor, são bem vindos. Elogios sinceros e adequados dão energia à alma, oferecem sorrisos.

Respeitar e Aceitar Opções
É importante o doente oncológico sentir que tem controle sobre a sua vida e as suas opções. Não devemos criticar/duvidar das suas escolhas. Logo após o meu diagnóstico, fui a uma consulta com um oncologista recomendado pelo meu cardiologista. Era uma recomendação de alguém do meio e de quem tenho muita admiração. Não hesitei. Contudo, a primeira e única consulta com ele foi o suficiente para perceber que a nossa relação médico-paciente não iria correr bem. A médica que acabou por me seguir entrou na minha vida por acaso. Contudo, a mudança de médico foi criticada pelos meus familiares. Essa crítica fez-me duvidar da minha intuição, do que eu acreditava ser o melhor para mim e tirou-me forças. Todas as terapias e suplementos que eu comecei também foram criticados e julgados. Esse sentimento de nos defendermos e de duvidarmos de nós próprios é prejudicial e não traz nada de positivo. Senti que estava num julgamento a precisar de justificar as minhas acções. Não pode, nem deve ser assim. O doente oncológico, como qualquer outro doente, tem que ter a liberdade de escolha. Eu percebo que deve ser complicado um familiar ver o doente a tomar decisões que vão contra os seus ideais, mas a verdade é que não se pode fazer nada senão respeitar, acreditar e ter fé. Todas as decisões que tomei, quer a nível da escolha do médico, quer a nível de todas as abordagens “alternativas”, tiveram um excelente impacto no resultado da minha doença. O meu instinto estava certo.

Durante este processo, eu tornei-me vegana e a minha dieta foi muito rígida. Os meus familiares demoraram tempo a aceitar e respeitar essa minha decisão. É pena pois elas poderiam ter tido um papel mais ativo logo no início. É essencial aceitarmos estas decisões, grandes ou pequenas.

Usar a Palavra Cancro
Para mim, era importante que a minha doença não fosse tabú. Sei que é uma doença séria e algo pesada, mas eu encarei-a simplesmente como uma doença. Usei e uso sempre o nome da doença. Cancro. “Tenho cancro.” Não há como fugir dessa realidade. Muitas pessoas, felizmente pessoas menos próximas, falavam comigo como se eu fosse uma criança, por rodeios, sem usar o termo cancro.  É um cancro.
Também acho importante não demonizarmos esta doença. Isto, claro, é uma opinião muito pessoal. Não vivi esta doença como algo maléfico que me quer matar. Tive sempre uma postura de total aceitação e amor. Vamos falar sobre o cancro como algo natural, sem ódio, sem rancor. Já basta todos os sentimentos de medo e ansiedade que o doente sente. Não é necessário sentirmos essa onda de ódio por parte dos outros. Ódio gera ódio, sentimentos negativos geram sentimentos negativos. Amor gera amor, sentirmos-nos saudáveis é um passo para sermos saudáveis. Vamos tentar ter uma abordagem mais positiva em relação ao cancro.

Ajudar e Ser Útil
Como sou muito prática, acredito que a melhor ajuda é a nível de actos concretos que terão um impacto imediato. Deixo aqui uma lista de ideias de como ajudar o doente oncológico, principalmente durante os tratamentos convencionais (quimioterapia e/ou radioterapia e/ou cirurgia):

  • Se o doente tiver abertura para tal, oferecer um livro sobre o processo do cancro. No meu caso, um amigo querido ofereceu-me um livro sobre estratégias naturais para combater o cancro. Foi um gesto bonito e inesperado, pois na altura não éramos muito chegados. Esse livro abriu-me a mente para novas terapias, novas abordagens e acredito plenamente que aquele gesto simples foi chave no meu processo de cura.
  • O doente passará muitas horas a repousar. Gosta de ler? De ver séries? Filmes? De ouvir música? O que é que o doente gosta de fazer nos períodos de repouso? Uma amiga muito querida, que vive em Inglaterra, enviou-me o primeiro livro do Harry Potter, pois achou escandaloso eu nunca ter lido a série. Depois disso, o meu irmão ofereceu-me o resto da série. E depois disso, a minha sogra ofereceu-me outro livro do Harry Potter. De repente, tornei-me Potter-dependente e uma grande fã!
  • A comida é fundamental durante este processo. Não só é importante porque o doente precisa de se manter saudável e forte, mas porque comer durante a quimioterapia é um desafio. Tive a sorte da minha mãe preparar as refeições para a semana da quimioterapia. Assim, eu e o meu companheiro não precisámos de nos preocupar com a alimentação. O meu companheiro poderia aproveitar o tempo que não usava a cozinhar para cuidar de mim e dos nossos filhos. Essa ajuda foi valiosa. Receber miminhos em forma de comida também é positivo. Receber cabazes de frutas e frutos secos, ou outra comida que vá de acordo com os gostos ou orientações nutricionais do doente.
  • Tratar da casa. A minha sogra por vezes levava sacos de roupa suja, que lavava e secava em sua casa. Menos uma preocupação e menos uma obrigação a cumprir. Tratar de outras questões domésticas (ex: ir às compras).
  • Estar disponível para levar o doente aos tratamentos e/ou consultas médicas.

Mimos Específicos

  • Para o doente que use lenços durante a quimioterapia, é uma ideia simpática oferecer um lenço bonito. Ou um chapéu para o sol.
  • Eu andei de cabeça rapada o tempo todo. O meu cunhado rapou a cabeça dele como gesto de carinho e apoio e foi precisamente assim que eu o encarei. Soube tão bem. O meu companheiro e filho mais velho também raparam o cabelo, por iniciativa deles, e foi uma sensação maravilhosa estarmos os três de cabeça rapada. Não quero dizer com isto para irem logo rapar a cabeça. Contudo, se isso fizer sentido, é um gesto pequeno com um grande impacto.
  • Para a mulher que faz mastectomia completa ou parcial, oferecer um sutiã é uma excelente ideia. Não só é um gesto bonito, como também é uma prenda extremamente útil. Eu reduzi um número de copa. Precisei de sutiãs novos. No meu caso, também precisei, e ainda preciso, de roupa nova pois a redução mamária alterou bastante o meu tamanho. Há muita roupa que já não me serve.

O importante é o doente oncológico sentir-se apoiado e acarinhado, que não se sinta um fardo. Também é importante que os familiares e amigos tenham uma postura de que a vida continua, sem desvalorizar a seriedade desta doença. A vida continua a ser bela, o sol continua a iluminar os nossos dias. Há beleza em tudo que nos rodeia, no grande e no pequeno da vida. Vamos aproveitar para usufruir da beleza que este mundo nos oferece.

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2 thoughts on “Conselhos aos Familiares e Amigos do Doente Oncológico

  1. Joana Ferreira diz:

    Estou emocionada! Obrigada! Eu conheço a realidade do lado profissional. Todos os dias lido com muitos casos destes, em várias faixas etárias. No meu serviço tentamos reforçar os sentimentos positivos, mas nem sempre é fácil. Nem para a doente, nem para a família! Estas palavras vão ajudar-nos a ajudar! Vou afixa-las no meu serviço! Obrigada mais uma vez!

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    • Sofia Güerne diz:

      Grata, Joana, pelas tuas queridas palavras. Imagino que não seja fácil para ti a muitos níveis. As enfermeiras que me acompanharam durante os tratamentos foram excepcionais. Que mulheres fortes e corajosas, sempre positivas! Que bom saber que este texto poderá ajudar alguém. 🙂 beijinhos

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