O Caminho para a Cura

Para além do tratamento convencional pelo qual terei que me sujeitar para sobreviver a este diagnóstico, só eu tenho o verdadeiro poder de me curar. O primeiro e mais importante passo é ter vontade de me curar. A seguir, é importante perceber porque isto me está a acontecer. Não de uma forma de vitimização, mas sim de auto-consciencialização.
 Não encaro este diagnóstico como uma sentença de morte, mas sim como uma chamada para a vida. O meu corpo não está satisfeito com as escolhas que tenho feito na minha vida e luta desesperadamente para eu reagir. Há muitos hábitos que já estão enraízados que me prejudicam: hábitos alimentares, vícios alimentares, hábitos de sedentarismo, relações tóxicas, sentimentos de insegurança, sentimentos de impotência, sentimentos reprimidos que querem gritar e escapar do meu coração.

O cancro está localizado na mama esquerda, por cima do meu coração, onde guardo e escondo estes sentimentos tão tóxicos para mim. É como se estes sentimentos todos se tivessem unido e se metamorfoseado numa massa cancerígena. O meu corpo e alma sentem-se estagnados. A minha vida estava estagnada. A nível profissional, não me sinto realizada. Pelo contrário, sinto-me perdida, insegura, infeliz, desesperada. Não tinha noção de que esse aspeto era fundamental e tinha muito peso na minha vida. Na verdade, todas as peças têm que se encaixar em harmonia para nos sentirmos plenamente realizados e felizes. Para não morrer, preciso de procurar dentro de mim, libertar o meu verdadeiro Eu. Preciso de iniciar um percurso de auto-conhecimento e de amor próprio. Nestes últimos 33 dias, cortei com os vícios alimentares (nada descontrolado, claro!) que me davam uma sensação ilusória de bem-estar. O café, para ter energia e o açúcar, para me sentir melhor. Fiz as pazes com pessoas importantes na minha vida com quem eu estava de relações cortadas. Nestes 33 dias, as amizades de muitos anos fortaleceram-se e as novas amizades surpreenderam-me. Sinto-me emocionada pelo carinho e amor incondicional que tenho recebido.  Nestes 33 dias, tenho ido para a cama mais cedo (falta de café!) e, por isso, durmo mais e melhor. Acordo mais cedo, antes do despertador, e estimo esse tempinho só meu. Por vezes, fico deitada na cama a pensar e meditar; outras vezes levanto-me e vou fazer o pequeno-almoço. Comecei a fazer ioga e a meditar, que eu andava há anos a protelar. Com dois filhos, não tenho tempo para isso, era o que eu dizia. Quando queremos, quando sentimos que é essencial para o nosso bem-estar, encontramos maneira de conseguir.
Houve um momento durante o diagnóstico que me marcou profundamente. Antes disto me acontecer, nunca tinha conseguido meditar porque tinha a mente cheia de pensamentos e preocupações. Durante a cintigrafia óssea, fechei os olhos e visualizei cada parte do meu corpo saudável e forte. Imaginei o papel fundamental que cada parte do meu corpo tem para mim (pernas para andar, braços para abraçar, estômago para me nutrir, cérebro para guardar as minha memórias, boca para saborear a comida e beijar). Senti uma sensação estranha, como se a minha alma/o meu ser estivesse fora do meu corpo e o possuísse. Senti o meu corpo saudável e forte. Senti o meu corpo a dizer à minha mente que estava saudável. Eu senti-me mais forte e apaziguada que alguma vez senti. Não houve dúvidas nenhumas em relação aos resultados do exame – os ossos estavam limpos. Aconteceu-me o mesmo (não de forma tão profunda por não ter sido a primeira vez) quando fiz as TACs (torácica, abdominal e pélvica). A minha mente entrou em sinergia com o meu corpo e senti-me completamente (tirando o pormenor do cancro na mama, claro!) livre de doenças. O resultado veio confirmar isso. Nunca tinha estado tão presente com o meu interior. Nunca tinha comunicado com o meu corpo. Antes, sentia o meu corpo como um recipiente que eu usava para viver neste mundo e não uma parte integrante da minha alma. Esta doença está a ser um grande processo de crescimento pessoal, de aprendizagem, de me sentir confiante e com poder. Nunca me senti tão bem, tão confiante, com tanta energia, com um sentimento forte de ter total poder sobre a minha vida e o meu corpo.
A partir de agora, eu serei melhor pessoa, sentir-me-ei mais realizada, serei mais saudável e mais forte, a minha vida será mais maravilhosa. Encaro esta experiência não como o que o cancro tirou de mim (a mama, possivelmente), mas sim o que o cancro me ofereceu. Não tenho raiva do cancro, mas não o vou deixar encontrar no meu corpo um lar permanente.

Não sinto raiva.


Não sinto medo.


Sinto-me em paz.


Sinto-me forte.

Eu sou mais forte que esta doença.


Vou vencer esta doença; ela não me vai vencer a mim.

4 Abril 2016