Após a Corrida

Em menos de um ano ultrapassei um cancro da mama de estádio 3. Estou agora livre de doença, sem sinais de cancro no corpo. Não é tarefa fácil para ninguém. Não é tarefa fácil para uma mulher com uma cardiopatia grave. Não é tarefa fácil para uma mãe de dois filhos com menos de quatro anos. Não é tarefa fácil. Ponto final.

Sinto esses meses como se tivesse corrido numa maratona. Uma corrida intensa, eu cheia de força e adrenalina, os espectadores a apoiar e aplaudir.

Cheguei à reta final. Ganhei a corrida. E agora?
Os espectadores foram-se embora. Já não há espectáculo. Foram para casa, para a azáfama das suas vidas. A corrida terminou. Eu estou na recta final, cansada e sem forças. Preciso de apoio, preciso que me digam que a corrida foi boa, preciso que me digam, “descansa agora”. Preciso que me ergam e me ajudem a voltar à azáfama da minha vida.

Este tempo depois da corrida é mais importante do que parece e o apoio é fundamental. Neste tempo o corpo está a descomprimir da corrida e sente-se ainda mais cansado. As defesas vão-se abaixo. Sinto-me mais cansada agora do que me senti durante o processo de cura. Agora adormeço ao deitar o meu filho mais velho e muitas vezes nem chego a jantar. Estou emocionalmente extenuada. Para além deste cansaço, tenho que me adaptar a um novo corpo e um novo visual. No meu caso, tenho que me adaptar a ter seios mais pequenos. É uma mudança estrutural no meu corpo. Tenho que aprender a amar o meu corpo novamente. Olho-me ao espelho e já não vejo as mamas que alimentaram os meus filhos. Vejo mamas que vão ser bonitas e bem feitas, mas que agora ainda são somente pedaços de carne massacradas. Ainda não as sinto minhas. E tenho que ajustar o meu guarda-roupa a estas mudanças. Preciso de comprar sutiãs novos.  Perdi peso durante este processo e por isso não tenho roupa que me sirva ou que me fique bem. Tenho agora o corpo de uma adolescente. No outro dia fui comprar um par de calças- tamanho 12 anos e, mesmo assim, estão um pouco largas. A secção das meninas é extremamente limitada para mim, a maior parte da roupa tem padrões florais e com corações. Olho-me ao espelho e vejo uma pessoa diferente- corpo de adolescente, cabelo curtinho. Não me reconheço, mas amo-me à mesma. Esta fase de nos voltarmos a amar e aceitar leva tempo e é delicada.

Agora que já não tenho cancro, o carinho e a preocupação foram-se embora. Não há mensagens a perguntar se estou bem, se preciso de alguma coisa. As pessoas assumem que as células cancerígenas levaram consigo todo o mau-estar, cansaço e dúvidas. Não quero, obviamente, arrastar o estado de “doente oncológico” durante muito tempo. Aliás, fui operada há já dois meses e estou a recuperar muito bem.  Contudo, escrevo estas palavras como conselho a amigos e familiares de doentes oncológicos. É importante continuar a haver apoio no tempo “pós-doença”.  Apesar do cancro ter sido eliminado, o doente oncológico permanece um doente oncológico. O risco de ter cancro novamente está presente, a simples palavra Cancro faz parte do nosso vocabulário e vida, e precisamos de algum tempo para nos ajustarmos a essa nova realidade.