Ficar sem Cabelo em 3 Passos

Pelo que li e me disseram, perder o cabelo seria uma das partes mais traumatizantes do tratamento. Tentei perceber porquê. É só cabelo, que irá renascer. É só um aspeto estético do nosso corpo e da nossa imagem, mas não é uma parte vital de nós. Refleti muito sobre isto e pensei que o que me poderia impressionar era a forma como o cabelo iria cair. Aos montinhos, de manhã, na cama, no carro, no duche, ao pé de um estranho, num restaurante, quase de forma impercetível. Não achei que fazia sentido passar por essa experiência. Decidi então criar uma nova experiência para mim, algo positivo e reconfortante. Algo memorável!

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ANTES

Passo 1 – Cabelo curtinho

Fui ao cabeleireiro e pedi para me cortarem o cabelo curto como um rapaz. Nunca tinha tido o cabelo tão curto. Estava bastante nervosa pois vivera a minha adolescência e a maior parte da minha vida adulta com problemas de auto-estima. Olhei-me ao espelho e gostei do que vi. Sou bonita. As minhas feições imperfeitas são bonitas e fazem de mim quem eu sou.  Esta parte do processo de cura é de facto um desafio para mim. Nunca tinha posto a possibilidade de cortar o cabelo tão curto. Com orelhas e nariz salientes, cabelo curto seria mostrar ao mundo o quão imperfeita eu sou. Estou a aprender a aceitar-me como sou, a gostar das minhas imperfeições e a olhar-me ao espelho todos os dias e ver o quão bonita eu sou. Dizem que eu pareço uma pequena fada.

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DEPOIS – PASSO 1

O meu filho mais velho ficou admirado quando me viu com o cabelo curto e gostou. Desta forma, os meus filhos não iriam percepcionar esta mudança radical pela qual iria passar. Seria simplesmente uma mudança de look.

Passo 2 – Cabelo rapado

Depois da primeira sessão de tratamento, a enfermeira disse-me que o cabelo iria começar a cair daí a cerca de três semanas. Eu não iria ficar à espera para ver isso! Quem decide quando o meu cabelo cai sou eu. E ainda bem que o fiz…

No dia 15 Maio, às 23:00, eu entrei no chuveiro e rapei todo o cabelo para esperar pela perda total de cabelo.  Foi uma sensação incrível de poder ao ver os pedaços do meu cabelo a amontoarem-se no chão; uma vasta montanha de cabelo forte e bonito crescia no chão. Cada corte deu-me força e senti-me muito poderosa. Depois de ficar com o cabelo muito curto, passei à máquina zero. E comecei a rapar todo o cabelo. O Pedro ajudou-me e rapou-me a cabeça toda.

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Passei por esse processo todo sem espreitar ao espelho. Receosa, nervosa, sem expetativas. Quando me vi ao espelho, fiquei chocada! Admirei-me e observei-me. Quem és tu? Sorri para mim. “Sou eu, a Sofia!” E vi o brilho nos meus olhos. É a Sofia! Sou eu! Estou igual, sou eu à mesma, nada mudou. Depois de um banho, observei-me ao espelho outra vez – nua e vulnerável. Como um bebé em grande escala. Olhei para o meu corpo e ri-me. “Que engraçada que eu estou!” O Pedro entrou na casa-de-banho, deu-me um beijo na cabeça careca e sussurrou carinhosamente, “O meu Budazinho”. E fizemos amor. Um momento muito íntimo e puro, de aceitação e amor incondicionais do mais profundo que existe.

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DEPOIS – Sem maquilhagem, sem máscaras. Autêntica e orgulhosa.

No dia seguinte, o meu filho viu-me de cabeça rapada e achou estranho. Não sei bem o que sentiu ou pensou. Nessa noite, o Pedro também rapou a cabeça. E no dia seguinte, o meu filho ficou tão entusiasmado com os nossos novos looks que pediu para lhe raparmos a cabeça. Assim o fiz. Rapei a cabecinha linda do meu filho, num momento de tanto amor e carinho. E assim ficámos uma família de cabeças rapadas!

Passo 3 – Completamente careca

Umas quatro semanas depois da primeira sessão, senti os pequenos cabelos a cair. Pedacinhos a voarem pelo ar, a assentarem no chão e nas superfícies. Houve algo de belo nisso. Como se eu, fada mágica, estivesse a espalhar pózinhos de perlimpimpim pelo mundo. Fiquei com a cabeça com peladas, como se tivesse sido atacada por lobos e não gostei dessa aparência. Comecei a arrancá-los com os dedos e isso teve um efeito estranhamente anti-stress. Contudo, não podia continuar a fazer isso. A certa altura, apercebi-me que o cabelo não iria cair muito mais. Durante este tempo, usei o lenço distinguível dos doentes oncológicos. Olhavam para mim, com um esboço de sorriso e pena. Olhavam para mim e viam doença, sofrimento, medo. Isso não sou eu. Nunca fui! Nunca escondi a grande cicatriz que percorre o meu tórax.  Não sou pessoa de me esconder ou sentir pudor. A realidade é que agora sou doente oncológica e eu não tenho vergonha, nem pena, nem medo. É esta a realidade e eu aceito-o com toda a minha alma.

No dia 25 Junho, às 21:30, fui ao Lidl comprar uma gilette. Vim para casa, já estavam todos a dormir, e rapei todo o meu cabelo. Foi uma sensação tão boa, de pureza e naturalidade. Senti a suavidade do meu crânio. Como a sauvidade do rabinho de um bebé. Senti-me a voltar às minhas raízes. Como se eu me tivesse que despir toda (de todos os medos, preconceitos, das máscaras) para me ver autenticamente.

Desde que rapei o cabelo, deixei de usar lenço. Gosto tanto de me ver de cabeça rapada. As minhas feições estão mais autênticas, os olhos estão maiores e mais brilhantes, fico mais simétrica. Olho para a minha careca e vejo força, poder, determinação. Os lenços tapavam isso, adormeciam a força extraordinária que bombeia em todas as veias do meu corpo.  Olho-me ao espelho e vejo uma fada guerreira! E amo-me muito.

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Sem lenços. Sem máscaras. Sem cabelo. Com muito amor e dedicação.

Apontamentos sobre os pêlos

Antes de iniciar o tratamento, fiz à minha médica uma pergunta muito importante e legítima: “Vale a pena fazer a depilação agora ou devo esperar até os pêlos caírem? Estou com as pernas tão peludas!”
A médica riu-se e sugeriu-me fazer a depilação pois os pêlos ainda iriam demorar a cair. Fiz a depilação às meias pernas e os pêlos não voltaram a crescer. Contudo, os pêlos dos braços e do resto das pernas não caíram. Rapei os pêlos das axilas e esses também não voltaram a crescer. As sobrancelhas e as pestanas não caíram. Nestes cinco meses que percorrem os meses do verão, tenho sorte de não ter que me preocupar com a depilação e os cuidados estéticos tão enfadonhos que as mulheres têm que ter. A única coisa que faço com alguma frequência é a “barba” da cabeça, pois cresce um pouco e é percetível. Fazer a “barba” da cabeça é uma experiência como poucas. Sinto-me homem, sinto-me mulher, sinto-me vulnerável; tenho um cuidado muito terno que nunca tivera com as pernas. É uma experiência única, estranha e muito orgânica.

Cabeça Careca e Crianças

Um conselho muito importante de quem passou por isto. É importante não adormecer ao lado de uma criança com instrumentos de pintar ao seu alcance. A cabeça careca é uma extraordinária e divertida tela para uma criança! Da mesma forma, a cabeça careca deve lembrar-lhes um tambor pois os meus filhos gostam bastante de “tocar bateria” nela. Conclusão, a vulnerabilidade da careca não está imune à imaginação traquinas das crianças.

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