Operação e Pós-operatório

Ninguém nos prepara para a dor. É impossível quantificarmos ou qualificarmos a dor porque cada corpo é diferente e cada pessoa tem uma percepção diferente da dor.

Fui operada na quinta-feira, 29 Setembro. O que fizeram ao meu corpo em 150 minutos: esvaziamento axilar, remoção de tumor, redução mamária bilateral. Por mais que nos expliquem e façam desenhos do que vão fazer ao nosso corpo, ninguém consegue prever o que vai sentir física e emocionalmente.

Deram-me alta no sábado. Fiquei feliz por vir para casa e ver os meus filhos. O sorriso de felicidade nos rostinhos deles quando me viram foi do mais belo e puro, foi o símbolo de amor incondicional. Contudo, o conforto do lar não substitui o conforto e a segurança hospitalar. Faz-me falta a cama que sobe e desce, os analgésicos administrados intravenosamente, as enfermeiras carinhosas que sabem o que preciso e quando. É claro que não estou insatisfeita por estar em casa. Casa é casa; é o nosso refúgio. Ter que cuidar do meu corpo e das minhas dores sozinha é mais complicado não tendo a atenção que tinha no hospital. Não encontro posição confortável na cama. E tenho algum receio de rasgar as cicatrizes. Sei que a probabilidade disso acontecer é muito pequena, mas a dor aguda que sinto às vezes diz-me precisamente o contrário.  Hoje, depois do banho, olhei-me ao espelho e vi o que fizeram ao meu corpo. Tantos cortes e tantas cicatrizes! A mama esquerda já foi tão massacrada! Por um lado, estou fascinada com o trabalho de corte e costura que foi feito na perfeição. Por outro lado, sinto que o que me fizeram foi algo bárbaro e cruel. As dores e o desconforto não passam. Chorei por sentir estas dores, por não estar preparada para esta intensidade. Mas, o corpo é magnífico. Ele regenera-se, cura-se e fortalece-se. Raras foram as vezes que senti dor física (excluindo as enxaquecas recorrentes). Sinto estas dores no peito e lembro-me que tudo na vida é dual. Em tudo há sacrifício e recompensa. Tudo é bonito e feio. O dia é escuro e luminoso. Sinto estas dores para me lembrar do quão forte eu sou, de que eu consigo aguentar qualquer obstáculo ou dor, para me lembrar que no contexto da vida estas dores são insignificantes. Cada dia que passar as dores serão menos intensas.  Daqui a um mês não vou ter memória física destas dores. Só o bom permanece em nós. Daqui a um mês vou olhar para os meus seios sarados, pequenos como quando tinha 14 anos, e vou suspirar de alívio e gratidão. E nesse suspiro, voará uma molécula das dores que senti.

Todos os dias terei que cuidar das cicatrizes. Lavar, aplicar betadine e colocar compressas. Todos os dias terei que fazer exercícios de fisioterapia. E nos próximos tempos terei que ter sessões com uma fisioterapeuta. Não posso cozinhar, nem conduzir, nem dar colo. Estas próximas semanas vão ser duras e desafiantes. Acredito que tudo correrá bem. Tenho fé e muita força.