O Fim da “Luta” Contra o Cancro

Passaram 229 dias desde que recebi o resultado da biópsia, desde que li a palavra sinistra “carcinoma”.

Na sexta-feira passada, 14 Outubro, recebi o resultado da análise patológica das células que retiraram durante a cirurgia. Negativo. Já não tenho células cancerígenas no corpo. Já não tenho cancro dentro de mim. Esse dia foi muito emocional. Abri a panela de pressão e todas as emoções se soltaram. Confrontei-me com a gravidade da doença que tive.  Senti medo retroactivamente, pelo que podia ter acontecido. O resultado final foi extremamente positivo –  estou viva e já não estou doente. Mas, podia estar a morrer. Ser confrontada com essa realidade abalou-me. Foi como assistir, em câmara lenta, a uma bala a passar-me ao lado da cabeça, sentindo a frieza da possibilidade de morte. Sinto-me abençoada. Em oito meses passei de estádio III para zero. Sinto-me forte e orgulhosa. Sinto que todas as escolhas que tomei, mesmo as mais controversas, foram as melhoras e mais adequadas. Sinto-me bem por ter ouvido o meu corpo e, com calma e confiança, ter tomado as acções para o respeitar. Estive segura das escolhas que fiz e mantive-me fiel. Estou feliz por ter tido a clareza mental para não me ter desviado do percurso, por ter acreditado plenamente em mim. Acreditei no que o meu corpo me dizia. “Não vou morrer.” Sussurrava-me o meu corpo. Não duvidei. Não pensei na morte. Nunca adormeci com o peso do medo e da incerteza. Todas as noites, antes de adormecer, fazia um relato mental das coisas boas daquele dia e fazia planos para o dia seguinte. Dormi tranquilamente todas as noites.

Olhando para trás, para estes últimos oito meses, posso agora afirmar que o cancro foi a melhor coisa que me aconteceu. É uma afirmação invulgar e possivelmente controversa. Mas, é a verdade e é a minha verdade. Se eu não tivesse tido cancro, a minha vida não estaria tão bem como está agora. Fui obrigada a testar as minhas capacidades e superei todos os testes. Vi um lado meu que eu sabia que existia, mas estava há muito adormecido. Amo-me mais agora do que há oito meses. Respeito-me mais agora. Cuido melhor de mim agora. As minhas relações foram testadas. Umas passaram o teste, outras não. A relação com o meu marido foi testada. Dá-me muita alegria perceber o quão forte e impenetrável é a nossa relação. Com os seus altos e baixos inerentes a qualquer relação amorosa, esta relação superou este teste. A nossa relação está melhor e mais coesa. A proximidade com a morte mostrou-nos o quanto queremos partilhar a nossa vida um com o outro, o quanto nos amamos, o quanto somos felizes, o quão importante somos um para o outro. Que bom ter passado por este desafio com uma pessoa tão especial ao meu lado. Ele, tal como eu, encarou esta doença simplesmente como um desafio. Todos os dias ajudou-me a manter-me fiel ao meu plano, incentivou-me ou, naqueles dias mais complicados, mostrou-me que eu era capaz de tudo. Foi como um treinador de uma maratona, “mantém-te focada na chegada”. Tudo o resto é secundário agora.

Agora que não estou doente, posso dizer que o cancro não é, nem deve ser, uma doença medonha que nos vai roubar a vida. Agora que superei esta doença, olho à minha volta e fico espantada com esta necessidade bizarra que todos têm em chamar a isto uma luta. A luta contra o cancro. Isto não é uma guerra, nem uma batalha. Não há inimigos. Nada de bom advém de uma guerra. Nada. Há sempre vítimas e danos colaterais. Sempre. Mesmo que um dos lados ganhe a batalha, a vitória será sempre manchada. Mesmo encarando o cancro como o inimigo que nós vamos vencer, a vitória nunca será autêntica pois o cancro não é uma entidade externa ao nosso corpo. Mesmo que eu “mate” e vença o cancro, haverá danos colaterais no meu corpo. E isso não é uma vitória a longo prazo. Durante estes meses, tratei o meu cancro como uma parte de mim e dei-lhe muito amor. Imaginem um filho adolescente rebelde que só se mete em problemas. Uma das abordagens poderá ser castigá-lo e repreendê-lo. Outra abordagem poderá a de total aceitação, compreensão e amor. Qual terá o melhor resultado a longo prazo?   Eventualmente o amor e a paciência trarão os seus frutos. Foi o que fiz com o meu corpo. Enchi-o de amor e emoções positivas. E tive muita paciência. O amor não sara as feridas de um momento para o outro, mas acaba por sarar tudo.

Vamos deixar de encarar esta doença como um inimigo, como uma luta. Não é uma luta. Vamos aceitá-la e acarinhá-la. É um conceito complicado, eu sei. Vamos aceitar o cancro como uma parte de nós que precisa de ser trabalhada. Vamos tentar perceber porque é que isto está acontecer. Haverá sempre uma razão válida. Em vez de lutarmos contra, vamos “lutar” com o cancro. Vamos parar para pensar. O que se passa comigo e com a minha vida? O que preciso de mudar ou melhorar? E vamos deixar que o cancro seja o nosso guia numa viagem de auto-descoberta. Eu tive o privilégio de ter percebido muito cedo porque isto me estava a acontecer. Parece que dentro de mim uma luz se acendeu e eu fiquei iluminada.  Eu tinha muitas emoções reprimidas – muita mágoa, raiva e ressentimento. Comecei logo a fazer esse trabalho interior de libertar todos esses sentimentos negativos. Escrevi cartas a quem essa mágoa era dirigida. Percebi porque é que estava tão magoada e zangada, e decidi que não queria mais sentir isso. Apercebi-me que não posso exigir aos outros mudanças na suas vidas ou nas suas maneiras de ver o mundo. A vida é deles e esta é a minha vida. Não consegui mudar as circunstâncias pois não posso mudar ninguém nem a vida de ninguém. Não tenho esse poder. Mas, tenho o poder de mudar a minha postura e a maneira como percepciono as situações. A mudança tem que partir de nós. Nós podemos fazer pequenas mudanças que, aos poucos, irão ter impacto na vida dos outros, como um dominó. E, juntos, com calma, conseguimos criar essas mudanças.

Há estudos que mostram o efeito das emoções reprimidas, principalmente a raiva, nas doenças:
http://www.alternative-cancer-care.com/cancer-anger-link.html
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3939772/
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2836882/ 

Com tanto dinheiro transbordante dirigido a pesquisas contra o cancro, como é que se explica que o cancro esteja cada vez mais presente na nossa sociedade? A taxa de incidência de cancro sobe a cada ano que passo. Em 2030 projecta-se que a taxa de incidência terá subido 68%.
(http://www.cancerresearchuk.org/health-professional/cancer-statistics/worldwide-cancer/incidence).
Como é possível? Será que estamos a ver esta doença de forma errada? Estamos a vê-la de fora para dentro e não de dentro para fora. O prognóstico do meu cancro não era dos mais favoráveis. Como se explica que eu esteja em remissão após oito meses? Acredito plenamente que o meu trabalho, aliado aos tratamentos convencionais, travou o cancro e fez com que eu possa estar aqui a escrever isto, agora, sem doença no meu corpo. Abdiquei de muito, fiz sacrifícios, cortei relações. Custou-me, mas estive sempre confiante que o resultado seria extraordinário. Não há nenhum médico que me faça acreditar que só os tratamentos convencionais travaram esta doença. Sei o que sei e sei o que senti, e o que senti foi muito poderoso.

Por não estar doente não significa que eu deixe de fazer o percurso que iniciei. Os velhos hábitos sabem sempre como aparecer subtilmente, sem darmos por eles. Tenho que ser firme e consistente para estes novos hábitos depressa substituírem os velhos hábitos. Vou continuar a minha dieta, apesar de agora ter mais margem de manobra. Vou continuar a ser autêntica em relação aos meus sentimentos. Vou continuar a acreditar em mim e no meu corpo. Vou continuar a fazer os meus produtos de beleza na cozinha. Vou continuar a estudar a relação entre o cancro e todos estes factores. Vou continuar a ser feliz. Vou continuar a não ter medo. Vou percorrer este percurso até ao dia de morrer, velhinha e rodeada de amor e felicidade. Nesse dia, vou olhar para trás e lembrar-me que um dia tive uma doença que me deu vida e fez de mim uma mulher extraordinária.