O Desapego e o Medo de Morrer

A morte está sempre presente.
A vida está sempre presente.
Ambas coexistem, como o sol e a lua. Uma possibilita a existência da outra.

Eu estive perante a possibilidade da morte várias vezes na minha vida. Assim que nasci, tendo uma cardiopatia grave. Durante os meus primeiro oito meses em que esperei pela cirurgia correctiva. Durante a cirurgia para corrigir o defeito cardíaco. Após a cirurgia, seis ou sete anos de tempo de observação em que o corpo poderá rejeitar as alterações que foram feitas ao coração. E inúmeras situações que poderei ter estado muito perto da morte, mas não estive precisamente no “sítio errado, na altura errada”.

A possibilidade de morrer e o medo de morrer foi uma constante na minha vida. Um sentimento tão orgânico e intrínseco que eu nem tenho consciência dele. Faz parte d mim, como ter braços compridos ou sardas.

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Quando fui diagnosticada com cancro, essa possibilidade de morrer tornou-se real. Havia de facto uma possibilidade concreta de eu morrer. Um dia, fui buscar o meu filho à escola, levando o mais novo comigo. Observei o mais velho de longe, senti o calor do sol, ouvi os risos das crianças no recreio, e pensei, “E se eu morrer?” Vivo esta vida há 35 anos. Podia ter morrido logo no início da minha vida, mas por alguma razão, isso não aconteceu. Nasci numa família que me ama, que teve recursos para eu poder ser operada. Nasci num país bonito onde a paz e o sol reinam. Passei a minha infância em vários países e tive amigos de diversas nacionalidade e religiões. Vivi em países e cidades fascinantes. Tive a liberdade para seguir os meus sonhos. Sei o que é amar. Sei o que é ser amada. Vi o nascer e pôr do sol em várias cidades. Sei o que é a felicidade. Sei o que é estar grávida e gerar vida. Já senti um ser humano crescer dentro de mim. Sei o que é amor incondicional. Tenho o privilégio e honra de conhecer os meus filhos e de estar presente no seu crescimento. Sei o que é rir até chorar. Tenho o privilégio de ser livre, ser quem sou, fazer o que quero.

“E se eu morrer agora?”

Que privilégio seria morrer depois de ter vivido tanto. Estou grata por ter vivido tudo isto. E, se eu morresse, morreria sem sofrimento, ao lado das pessoas que mais amo.

O meu coração encheu-se de gratidão e aceitação. Seria uma benção se eu morresse assim, como uma mulher velhinha, rodeada da sua família, que morre em paz no seu sono.

Essa sensação foi libertadora. Ninguém precisa verdadeiramente de mim. A vida continuará sem mim. Se for mesmo a altura de eu partir, não há nada que me prenda aqui. Talvez o meu propósito na vida tenha sido trazer estes dois filhos maravilhosos ao mundo.

Desapeguei-me. Se for mesmo a altura de eu partir, não estarei apegada ao medo de morrer, ao que eu vou perder. Libertei-me desse medo. Em vez de medo, comecei a sentir gratidão. Gratidão por tudo o que tinha vivido até então. Gratidão por ter tido os meus filhos e por conhecê-los e amá-los. Gratidão por saber da possibilidade de morrer. Comecei a viver a vida cada dia, não como o cliché “vive cada dia como se fosse o último”, mas sim como mais uma dádiva. Cada dia acordava e sentia que era uma dádiva poder ter mais um dia para ser quem sou, fazer o que quero, amar profundamente, sentir o sol, rir, sorrir, dar muitos beijinhos aos meus filhos.

É tudo uma questão de perspectiva. Mudei a minha perspectiva e o mundo abriu-se a mim. Estou grata pela possibilidade de morrer pois isso significa que seu estou viva. Estou grata por não estar doente e poder viver. Não tenho medo de morrer. Esse medo foi substituído por uma vontade poderosa de quero viver. Quero viver porque viver é bom, é desafiante, é estranho, é maravilhoso. Quero viver porque quero passar todos os dias a amar e a conhecer os meus filhos. Quero viver porque eu e os meus filhos ainda temos muito a aprender uns com os outros.

Quero viver porque sim. Não quero não morrer, simplesmente quero viver.