Primeira Sessão do Tratamento

Vou iniciar o tratamento que inclui seis sessões de vários fármacos: Tratazumab e Pertuzumab (os anticorpos), Docetaxel e Carboplatina (as quimioterapias), anti-histamínicos, corticoides, etc. Essas sessões serão de três em três semanas com a duração de quatro a cinco horas cada.

Segunda-feira – 9 de Maio 2016 

Iniciei o tratamento às 10:00. A sala de tratamento é fria, mas surpreendentemente agradável. Esperava uma sala sombria e um ambiente menos acolhedor. O primeiro fármaco durou 90 minutos e correu bem. Não senti dores, mas senti a estranha sensação de pequenos choques elétricos na mama. Falei com amigos pela internet, escrevi uma história e comecei a ler um livro da Maria Montessori. Depois desse fármaco, injetaram-me um anti-histamínico e um fármaco para prevenir os efeitos secundários das quimioterapias. Esta parte foi a mais complicada. O efeito sonorífero do anti-histamínico aliado ao efeito secundário do outro fármaco fez com que eu sentisse  vontade de desmaiar. Senti-me mesmo mal. Tentei adormecer. Assim o fiz, enrolada e dobrada no cadeirão, como se estivesse num avião. Aliás, toda a experiência foi muito semelhante à de estar num voo de cinco horas (com a exceção da chegada a um destino maravilhoso!). Estive a tentar encontrar conforto num cadeirão, sem me puder mexer muito pois tinha um tubo no braço conectado ao aparelho. Tinha recusado o catéter que normalmente inserem no peito, enfiado numa artéria, para facilitar a administração dos fármacos. Conheço-me bem. Eu iria sentir o tubo dentro da artéria e isso seria causa de muita ansiedade. Poderia chegar ao ponto de tentar arrancar o tubo de lá para fora. Felizmente tenho veias herculanas.

Os fármacos da quimioterapia entraram dentro do meu corpo como um exército de soldados fortes e determinados. Não senti dores, mas senti o líquido espesso a espalhar-se por todas as partes do corpo. Não foi uma sensação muito agradável, mas foi suportável. Quando cheguei a casa, estava tão cansada que fui logo para a cama. Senti que tinha chegado do aeroporto depois de uma longa viagem, com o corpo moído e a mente a gerir os fusos horários trocados. Senti a mente enublada e o corpo frágil.  Dormi bastante nesse dia.

Terça-feira – 1º dia depois do tratamento

Não dormi muito bem de noite por causa do meu filho mais novo. O sono interrompido não ajudou a recuperar. Contudo, acordei bem disposta e com alguma energia. Tomei o pequeno-almoço com os meu filhos e despedi-me do mais velho. Depois, sozinha em casa, voltei para a cama, liguei a televisão e adormeci quase de imediato.

O Pedro trouxe-me o almoço. Ao ver e cheirar a comida quentinha, senti-me logo agoniada. Comi abacate, tomates cherry, bolachas de arroz com creme vegetariano, tremoços e frutos secos. Foi o suficiente para me nutrir e tirar a fome. Depois de almoço, passei a tarde a dormitar. Ao jantar, tentei comer, mas ia vomitando. Comi uma fatia de abacate e, mesmo isso, não me caiu bem. Bebi um smoothie de frutas e comi uma barrita de frutos secos. Não era muita comida, mas foi o que consegui comer. Os enjoos já começaram. Estes sintomas são muito parecidos com os que tive no primeiro trimestre da primeira gravidez.

Não me senti mal, não tive dores, mas senti-me exausta.  O meu corpo estava dormente, ensonado, não reagia aos meus estímulos. Senti-me anestesiada.

Quinta-feira – 12 de Maio  – 3º dia de tratamento

Hoje faço 36 anos. Neste dia, em vez de uma celebração e festa, sinto na pele a cura desta doença. Um dos nódulos no peito está mais pequeno. A própria mama está menos rija; sinto-a mais flácida, mais parecida com a outra mama. Continuo a sentir pequenos choques elétricos na mama. Fecho os olhos e imagino milhares de criaturas, pequeninas fadas, a dançar nas células cancerígenas. Será que a cura física já começou?

Tinha a expectativa e vontade de celebrar os meus anos fora de casa. Mas, o meu corpo ainda não está pronto, precisa de descansar mais. Quando fizer 37 anos, terei toda a energia, força e beleza para uma celebração em grande. Este ano, o mais importante é a cura!

Tomei um banho quente, limpei o meu corpo e cuidei de mim.

Sinto o corpo pesado, sinto a densidade dos fármacos embrenhada nos tecidos do meu corpo. Sinto que a energia mental não é compatível com a do meu corpo. Como se os recetores estivessem desligados. Sinto que tenho que deixar o meu corpo repousar e respirar. Deixo os fármacos penetrarem todas as minhas células do meu corpo, sem medo, somente com fé e força.

-14 Maio 2016

 

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